Thursday, April 20, 2006

Hoje tocou-me de uma forma especial uma estrofe do hino de laudes:
Não há ressurreição sem haver morte,
Nem triunfo se não houver batalha:
Saibamos nós morrer em cada dia
E ser o homem novo!

Esta estrofe fez-me recordar uma interpelação que alguém me fazia ontem. “Padre tenho tantos problemas que já nada faz sentido na minha vida, nem a oração nem a missa…”
Se existe alguma coisa que exprima a nossa dor pode ser por exemplo a palavra perda. Que fazer das nossas perdas? Penso que devemos chorar as nossas perdas. Entregarmo-nos ao desespero à revolta significa deixar que as nossas perdas desfaçam os nossos sentimentos de segurança e nos conduzam à dolorosa verdade da nossa fragilidade. O nosso desgosto faz-nos experimentar sentimentos de vazio, em que nada é firme, onde tudo se encontra em constante transformação.
Diz-nos o evangelho “Bem-aventurados os choram porque serão consolados…”.
Mesmo assim em desespero não deixe de rezar, nem de ir à missa…, dizia-lhe eu… É preciso ter a coragem de transformar aquilo que se perdeu não em ressentimento mas em gratidão.
Muitas vezes tomamos a opção do ressentimento. O ressentimento é uma das forças mais destrutivas da nossa vida. Podemos mesmo dizer que é como que uma zanga fria, que se instalou no nosso interior, tornando mais duro o nosso coração.
Na eucaristia encontramos uma outra opção. Encontramos a gratidão. Chorar as nossas perdas é o primeiro passo para nos afastarmos do ressentimento e nos aproximarmos da gratidão. Na eucaristia imploramos o amor de Deus sobre nós. “Senhor tende piedade de mim…” Implorar o amor de Deus é sentir-se frágil, mas não vítima, é estar disposto a deixar-se transformar pelo amor de Deus. Só a terra desfeita pode receber a água, a terra dura não deixa ‘repassar’ a água. Assim é com o nosso coração. Deixar que o nosso coração receba a água de Deus.
Assim por baixo do nosso cepticismo e diria mesmo do nosso cinismo, há sempre o desejo de amor, de comunhão, mas para que isso aconteça e se concretize é preciso escutar com muita atenção as vozes mais profundas do nossos coração.
Senhor tem piedade de nós” e Ele responde-nos “Basta-te a minha graça”.
Terminei a conversa dizendo à pessoa, nunca se canse de pedir a cura do seu coração. Cura-me Senhor com a tua graça…

1 comment:

Malu said...

Que bonito e como agora sou capaz de ver diferente de quando passei uma má fase. O sofrimento pode até ser perigoso, reparo, se não tiver apoio assim como o seu, porque pela minha experiencia, lembro a enorme confusão em que me encontrava e pela mistura de sentimentos, nunca explicados. Surgem milhões deles novos, sempre diferentes, mas, se igualmenteacontece o vazio, repito que pode ser perigoso e causar afastamento. Vou passar a estar mais atenta a quem sofre.